A odontopediatria costuma ser associada, de forma quase automática, à prevenção da cárie, ao ensino da escovagem ou ao controlo do desenvolvimento buco-dentário de meninos e meninas. Mas ficar apenas por aí seria limitar-se a uma pequena parte de um trabalho muito mais amplo e profundamente humano.
As especialidades médicas têm-se isolado cada vez mais. A hiperespecialização trouxe grandes avanços, mas também fez com que, em muitos casos, perdêssemos uma parte essencial da medicina: a visão global do paciente.
A boca não funciona de forma isolada. Está relacionada com a respiração, alimentação, sono, postura, tónus muscular, desenvolvimento craniofacial e o equilíbrio geral da criança.
Durante muito tempo, muitos destes problemas foram atribuídos quase exclusivamente a fatores genéticos. No entanto, hoje compreendemos que os fatores ambientais influenciam muito mais do que se pensava, desde fases muito precoces, incluindo a forma como viemos ao mundo.
O tipo de parto, a amamentação, a alimentação nos primeiros anos, a respiração, os hábitos orais, o uso de ecrãs, a postura e o ambiente em que a criança cresce podem condicionar de forma decisiva o seu desenvolvimento funcional e estrutural.
Por isso, hoje é imprescindível recuperar uma visão mais integral. A boca reflete muitas vezes desequilíbrios que provêm de outras partes do corpo:
Ou seja, muitas vezes a boca expressa desequilíbrios que têm a sua origem noutros aspetos da vida da criança.
Não se deve esquecer que a cabeça concentra as funções neurológicas e sensoriais mais importantes. Os olhos, a boca e o ouvido estão ligados pelos pares cranianos, que, por sua vez, se relacionam com o resto do corpo.
Por isso, intervir na saúde oral infantil exige compreender a criança no seu conjunto, uma vez que todos os sistemas estão interrelacionados. Uma criança em crescimento pode mudar; uma vez desenvolvida, só é possível compensar.
A odontopediatria precisa de trabalhar não apenas em ensinar a escovar os dentes ou prevenir cáries. Consiste em ouvir, observar, orientar e compreender que por trás de cada sinal clínico pode haver uma causa mais profunda.
Detetar hábitos e parafunções, orientar as mandíbulas trabalhando a ortopedia de um ponto de vista funcional e colaborar com outros profissionais, como otorrinolaringologistas, logopedistas, osteopatas, fisioterapeutas, podólogos e optometristas, é parte essencial deste acompanhamento.
A verdadeira prevenção não nasce de olhar para uma única parte, mas de compreender como tudo se relaciona. Recuperar essa visão integral não significa perder rigor, mas regressar à essência da medicina: tratar pessoas, não partes isoladas do corpo.
Cristina Araújo
Ortodontista e dentista pediátrica